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Necrópole Aquática

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   A madeira range, e o nosso barco de pesca vai de encontro à espessa neblina, naquele mar tenebroso que até então calmo era. Roberto, meu companheiro de pesca, que não era nada cético, como de costume, preparava o arpão e a grande rede, sempre com os ouvidos cobertos de cera, acreditando que dessa forma não cairia nos encantos do canto das sereias. Eu, por outro lado, preferia deixar meus ouvidos livres para serem penetrados pelas melodias de Paganini , que tocava na vitrola dentro da cabine do nosso barco. Excedendo um pouco a velocidade, rasgamos a misteriosa neblina com nosso barco; enquanto isso, Paganini destruía as cordas do violino, virtuosamente ágil, presenteando meus tímpanos com sua sonoridade sombria; um deleite para meus ouvidos - orgasmo sonoro!    Eu e meu parceiro de pesca sabíamos dos boatos envolvendo as misteriosas neblinas que, segundo os moradores da região, tal neblina era responsável pelos desaparecimentos de barcos e pescadores, ...

Buquê De Assombros

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Oscar era seu nome, um ébrio que trançava suas pernas ao caminhar de volta para casa, cambaleando, após uma noite de bebedeira com os amigos. Perto da meia-noite, passando em frente ao extenso muro do cemitério, o homem tropeçava, mas não desistia de seu rumo. A caminhada era longa, e o muro de lamentos, que separava a vida da morte, era sua única companhia até a esquina da rua onde ele vivia. Com o intuito de se distrair durante o percurso ele cantarolava, antigas canções de amor, canções essas que o fizeram lembrar dos bons tempos de juventude, especialmente dos bons momentos que viveu com sua amada Vera, que após anos de casados ele passou a chamá-la carinhosamente de Verinha. Foi durante uma dessas canções, de um antigo cantor que vivia ali mesmo na região, que Oscar se lembrou de que naquele dia, ele e Verinha, completavam trinta e um anos de casados. Desesperado, o homem alimentado pelo álcool se queixava, por ter deixado a pobre Verinha em casa para sair e beber com os amigos na...

Desfile Fúnebre - (13 Contos Fúnebres)

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     A terra das covas movimentam-se, abrindo passagem para que os pútridos defuntos retornem à superfície depois de anos de sono lúgubre. A população de Franco da Rocha, cidade interiorana, marcada por inúmeros mistérios, foi avisada sobre uma maldição carnavalesca: jamais festejar o carnaval durante a noite de quarta-feira de cinzas. O problema é que, de geração em geração, a tal lenda foi ficando esquecida, e cá estamos, nesse relato onde a mais fúnebre das festas aconteceu. No centro da cidade, três escolas de samba se preparam para começar o desfile, enquanto que, no cemitério não muito longe dali, defuntos macabros se aprontam para a nefasta folia.    Ninguém poderia imaginar que uma linda noite fresca, de céu tão limpo e repleto de estrelas, reservava um acontecimento amedrontador que faria o mundo virar pelo avesso, trazendo o inferno e seus demônios às ruas para participarem do primeiro dia de Quaresma. Folia na cidade; show de horrores no cem...

O Defunto Que Desceu Pela Chaminé - (13 Contos Fúnebres)

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      Querido Papai Noel. Preciso da sua ajuda. Quero o meu pai de volta. Sei que não fui uma criança exemplar nos últimos meses, e meu pai sempre me avisou do espírito maligno chamado Krampus que pega as crianças más na noite de Natal. Depois que a minha mãe morreu eu ouvi várias vezes que eu estava ficando rebelde; não sei bem o significado disso, mas sei que coisa boa não é. Você sabe, Papai Noel, que sempre fui um bom garoto; sabe dos elogios que sempre recebi dos meus professores, que sou um ótimo aluno, que escrevo muito bem e sou muito criativo; espero que você já tenha lido uma das minhas histórias que enviei nas cartas anteriores. Um dia serei escritor, e vou escrever muitos livros para você dar de presente para todas as crianças que se comportaram bem durante o ano. Acho que você poderia realizar esse meu pedido de trazer meu pai de volta, afinal, o Krampus deveria ter me levado; eu que me comportei mal, e não o meu pai, ele não tem culpa de nada.  ...

O Berro da Roseira

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Eu desejo, fortemente, que tudo o que presenciei minutos atrás seja uma ilusão causada pelo excesso de bebida. Afinal, como tudo aquilo poderia ser real? E cá estou eu, mais uma vez, conversando comigo mesmo. A atmosfera deste cemitério me incomoda constantemente, mas eu sempre fui um homem cético; eu não acredito, digo… eu não acreditava em assombrações, só que agora, eu tenho lá minhas dúvidas. De uma coisa eu sei: eu nunca, jamais, em hipótese alguma, andarei à noite por esse cemitério novamente. Aquilo era mesmo um bode preto? Oh, com certeza, era! Ele surgiu de repente, em cima do túmulo ao meu lado, raspando um de seus chifres medonhos em meu braço, e eu pude sentir o calor escaldante daquele chifre, quase deixando uma queimadura em minha pele enquanto o bode, oh, criatura das profundezas mórbidas, o bode balançava sua cabeça fazendo movimentos agressivos para cima e para baixo, enquanto liberava de sua boca faíscas flamejantes. Ao redor, eu podia ver a terra das covas movimentan...

O Caixão na Estrada

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“Aquilo é um caixão?!” — Exclamou Dario, interrompendo a fala de Marisa enquanto caminhavam pela estrada escura e abandonada. Já passava da meia-noite e, o jovem casal, que vinha conversando sobre diversos assuntos, ficaram em silêncio, paralisados, observando o caixão à beira da estrada. O cenário era realmente assustador; a estrada velha que cortava o matagal se estendia numa penumbra aterradora; a noite era fria e silenciosa; graças ao forte vento, podia-se ouvir com exatidão os galhos e as folhas das árvores movimentando-se. O caixão, abandonado à beira da estrada, aterrorizou de vez a noite daquele casal; digo… a última noite daquele jovem casal. Marisa acelerou o passo, e Dario, tremendo de medo, parou para averiguar o macabro caixão. — Vamos, Dario! O que você está fazendo aí? — Suplicou Marisa. — Espera! Quero ver se tem alguém dentro do caixão. — É óbvio que há alguém aí dentro. Vamos embora! — Só mais um minuto — Dario examinava minuciosamente cada detalhe daquele caixote fún...